
Eu não me lembro de quando tudo começou, só sei que foi assim,natural e sem o repicar de sinos. Eu era pequenina,mas senti um enorme desejo de ver o mundo. E tudo isso tinha uma relação com a História. Eu me preparava para brincar todas as tardes, diante do muro de cimento (meu quadro negro) colocava alguns tijos para servirem como alunos.Alguns até reagiam bem as minhas aulas, mais do que muitos dos meus alunos verdadeiros,risos. Maldade a parte, eu ficava lá, ensinando a eles sobre a História do Brasil.
Tinha lá meus 6 ou 7 anos, e já falava muito em Santa Catariana, ah...como eu queria conhecer Santa Catarina, nem sabia onde ficava,mas eu queria ver. Legal foi descobrir anos mais tarde que Santa Catarina era um lugar especial, tão especial quanto o nome que tanto me encantava.
Eu ensinava História do Brasil, e sonhava que poderia viajar no tempo. A viagem já me atraia. Nem sabia eu onde essa paixão iria me levar. Nesse processo de conhecer sobre o mundo, e não de conhecer o mundo, eu descobri um novo lugar misterioso: Paris. Sabia que o Titino (um tio que morreu tempos depois) sonhava em ir até lá. Paris me parecia um sonho, cheio de gente bonita, elegante e muito muito inteligente. Ah , e se tinha uma coisa que eu sempre quis ser era INTELIGENTE. Adorava quando me elogiavam pela inteligência, eu não sabia ao certo,mas me parecia que isto seria algo mais duradouro. Êta menininha esperta, e inteligente, claro.
Bem, assim, Paris ficou por perto, me rondando. Na quinta série as primeiras aulas de francês, adorava a musiquinha:
"Bonjour Bonjour mes amis /Bonjour Bonjour Professeur/ Bonjour mes amis/ Commaint les vous/ Bien , bien , Merci.
Bonjour Françoise commaint ça va? ça va bien , bien, merci./ Bonjour Simone , tu vas bien, tu vas bien? Oui Merci, oui merci. "
Putz...tanto tempo...
Essa musiquinha me fazia querer ir lá , junto aos franceses. Depois isso pareceu coisa de "colonizado", "imperialista", "careta". Ah...isso é engraçado, pois eu sempre pensava nisso antes de todo mundo. Tinha meus 12 anos. Enfim, quem me salvou foi a literatura. Quando tudo parecia careta, e quando eu era na verdade a maior das caretas, a literatura me falou de transgressão, li Ernest Hemingway, ah...Paris é uma festa...li Simone de Beauvoir. Eu tinha 13 anos ,mas uma coragemmmm. Enfim, li tanto que com 15 para 16 descobri a poesia. E aos 30 descobri que tem coisas que a gente pensa, mas só os poetas conseguem colocar em poucas palavras, e se isto era uma verdade o meu poeta era Charles Baudelaire. Ah...lá estava Paris de novo. Agora a cidade distante das elegantes festas de Hemingway, ou dos intelectuais de Beauvoir. O lixo, o sujo, o profano, ahhhh a transgressão. Paris me seduziu, e se consolidou como um grande sonho.
Hoje, aos 41 anos, faço força para que as horas passem rápido. Faltam 18 dias para que eu realize um sonho de menina, agora com a certeza e a coragem da mulher que sou. Forte, pronta e feliz para poder ir ao encontro desta cidade, que me deixou marcas tão profundas, assim, de tão longe. Chegarei lá e descobrirei um pouco dos mistérios desta atração. O Coração está disparando...